domingo, 12 de julho de 2020

Sankofa



Na minha pele carrego
Ânsia ancestral
Resistir para existir
Açoite mortal
 
 Luiz Gama e a justiça social
Abdias e a política
Lélia e a pesquisa
Conceição e sua escrita
Brasil amado!

Qual o teu navio negreiro?
O Camburão,
O Hospício,
O Caixão
Amado Brasil?

Do Benin a Costa do Marfim
Nove voltas na
Árvore do esquecimento
Se vai
A chuva e o vento

A carne mais barata
Elza mostrou
Mais um preto encarcerado
Na vida
Foi marcado
Negro brasil!

Filho de Maria
Matéria jornalística
Talvez das Graças

Uma bala perdida
 Da Consolação
Valei-me
Estampada na revista
 Senhora do Rosário
Brasil negro?

A Esperança é Garcia
Entre Ágatha e João Pedro       
 Herança minha 
100 tiros de alerta
Ocultação de cadáver
Advertência
Adélio
Não haverá complacência

Falam de cobiça
Milton e seus Santos
 Donos da injustiça

Ama de leite
Seio
Não teu
Estuprada
Relegada ao seu
Da senzala ao cortiço
Do tronco ao homicídio
Da loucura ao suicídio

Falam de meritocracia
Filha mestiça
Sufocada no chão
Supremacia

A mancha de Caim
 Relegado, amaldiçoado
Máscara de Flandres
Escorre carmim

Das mãos da sinhá
O coração até a boca
Usando linho
Esmagado com a mandíbula
Velho e sozinho

Resistência
Não combina
Com
Indolência

Aos meus!

—Myller Mayer

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Janeiro de 98

Flor do verão
Estação mais quente
É corpo
Sensação

A mente
O jeito
Harmonia perfeita

A linha do Equador
seus encantos
O caribe no teu olhar
profundo
De misteriosos
segredos

Garimpando
a joia bruta
Que tu és
Lapidação
Mineral translúcido
Inestimável

Jazida do teu coração
Pulsante
ternura
A Paixão
emana

Brilhe no bloco
Ardente
Um turbilhão
De
Desejos

O vento
teus cabelos
Inteligência
delirante
Aroma
inebriante

No lago
dois cisnes
Um par
Figuras ímpares
Que se completam

És tantas
em uma só
Acredite em meus versos
Esculpidos a tua imagem
"Angel" de Benjamin Victor
Ao êxtase de Bernini

As leis romanas
Iustitia
O futuro
É teu

Felicidade
que nasceu
Nas asas de um beija-flor
floresceu

Liberdade
as filhas de Frida
No teu dia
E sempre


—Myller Mayer

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Serenata alquimista

Quem tu és?
Atrás do véu
De teu sorriso
Encantador
Dor?

Só marinheiros sentem
Afogados
Na melodia
inebriante

Quem és tu?
Sereia ou Deusa?
Não importa
Só quero o encanto
Dos teus olhos
com os meus

Abre-te
Em carne nua
Exposta ao sol
na batida
do carnaval

Mostra-te o âmago
Desprotegido
machucado
Tantas vezes mal tratado
Relegado

Quem tu és?
Coração e  mente
Dionísio e Afrodite
Pureza e  pecado
Amor e solidão
inquietude e compaixão

Ladeira escura
calçada de segredos
chega ao fim
a madrugada

—Myller Mayer