segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

O Burocrata e a artista

 

Inquieto coração,
aurora do teu olhar
Me sobra  razão,
arte é arriscar.

Imagine o vento,
as ruas, os palcos
Intransponível sentir.

Leitura cigana
Eremítico sem par
Linhas, ilusão soberana
Alma insular 
Sina do fogo em vão.

Resignar em pesar,
angústia do viver...
ilusão.

Cobrir de carmim;
a brasa;
meu lampião.

Na barca dos aflitos,
desiludido 
Poetas malditos.

Folia de um homem só,
desconhecido
 Na neblina,
desfeito em pó,
cativa bailarina.

Do espinho quero a rosa;
teu néctar na mão 
Flor talentosa,
perfeita tradução .

Jangadeiro
não atraca 
em seu estaleiro
Mar em ressaca.

Pai Francisco 
renascerá
Meu capricho
fenecerá.

Anunciação 
Cartas de pranto
Louco tão são
Arcano otimista
Redenção.

Sumo de tangerina;
revestida em arte
Xote da alegria,
poesia.

Teu riso,
um estandarte,
retira quebranto;
floresce o paraíso
Desejar não é amar;
sonho é aviso.

A roda da fortuna
Meu destino:
ilusão; sofrimento;
karma divino.

Rode ou Licaste?
Eurídice pereceu
Paixão no Hebro
renasceu.

Intrínseco prazer
Roda da vida
Energia recíproca.

Deixo ir
quem de ausência
não suportará
Em outros braços
há de se encontrar.

Cérbero e Caronte 
a prantear
Um pobre Orféu,
a lira tocar.

—Myller Mayer

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Brinde à mágoa

Reencarnar em vida:
cor,
crença
e amor.

Ansiar 
teus lábios
Morrer 
afogado 
Goethe e a sereia 
Equivocado.

Menestrel só
Curta
é a partida;
tez da manhã 
Advertida

No teu casulo;
fio de seda
Da pupa a mariposa;
alma fechada 
De asas abertas,
repousa.

Desatento olhar;
Camuflagem do ego
Mascarar.

Transformação;
Espiritualidade;
Adaptação.

Teus fios negros
escondem;
sinal de nascença 
Do seio ao pescoço 
revelam
descrença.

Estupidez 
é pensar
Sensatez
do sonhar.

O real é abstrato
Comunhão 
Sobre os teu pés:
primavera;
sol de verão.

Na fronte,
o beijo;
meu toque 
Gustav Klimt 
Imerecido.

Flores revestem;
sempre-nua
Modelam;
a meia-nau 
O preto
casual.

Quem se oculta
nada revela
Aniquila tentativas; 
insulta;
condena.

Fustigada
emoção 
Ao Atacama 
exilada.

Ermo em meus passos
Bares e risos
Leve, breve
Sinceros abraços.

Caminhada
desperdiçada
Existir é despedir.


—Myller Mayer

quarta-feira, 29 de março de 2023

Com Amor e Estima

De não sentir
invento o sonho
De não amar
sinto a dor

Recôndito
Ferido de corpo e alma;
frígido 
Retomo o meu lugar; 
misantropo

Vermes da carnificina
Meu âmago
Um jarro
Aziago 

Teu riso,
Corsário Negro;
neblina;
ilusão.

Convido a escuridão
O teu olhar
chamas.

Sonhos de uma noite de verão 
Suor
Comédia de Dante
A cama;
mente.

Duro é ser;
saber;
querer;
renascer;
para morrer.

Tu és 
pecado meu;
recordação 
Meu mal.

Sangue decantado
Pagão 
magoado 
Saint Graal 
aguilhoado

entornado

—Myller Mayer



domingo, 8 de janeiro de 2023

Órfão de Anteros

Exortar
Na ausência do tempo,
exíguo,
instante 
Sensorial aroma.

Michelangelo 
o teu ventre
esculpiu,
a criação 
Contemplada dor
Pietá
não contemplou
a flor.

Aos monstros oníricos,
redenção
Cortam-se os dedos;
a língua
Guilhotina 
Redoma minha.

Lacerante
como um punhal
Telúrica.

Renegue a Medusa
Não sou Perseu!
Alma confusa
no mar Egeu.

Taça de cicuta
Sentimento na garganta
A disputa
Abraços e fatos
Beijos e desejos
Guernica
Ilusão de Caravaggio
Amor Vincit Omnia.

Digerir ao âmago
A tradução
Amar?
A negação 
O meu náufrago .

Aos seres infelizes;
ímpares
Na Ausência
os pensares
Em mim
a meia-nau.

Fustigada sensação
palavras aprisionadas
Cancioneiro é a cigarra
dilacerando os dias chuvosos
Predatória paixão;
amordaçada.

Que ao tempo regresse 
Torturados
Na areia do Saara
Cobiçados
Ampulheta e os segredos
amparados

Eu vi Copérnico
arrebatado 
Com o teu sol,
a íris 
aficionado.

Errante 
Fata Morgana
anátema.

De Anteros
a solidão 
De Eros
a prisão 

Simulacro
despedaçado
Nu nos seus braços
Cronos
Diga-me,
Apolo,
a profecia de Delfos.

—Myller Mayer




domingo, 12 de julho de 2020

Sankofa



Na minha pele carrego
Ânsia ancestral
Resistir para existir
Açoite mortal
 
 Luiz Gama e a justiça social
Abdias e a política
Lélia e a pesquisa
Conceição e sua escrita
Brasil amado!

Qual o teu navio negreiro?
O Camburão,
O Hospício,
O Caixão
Amado Brasil?

Do Benin a Costa do Marfim
Nove voltas na
Árvore do esquecimento
Se vai
A chuva e o vento

A carne mais barata
Elza mostrou
Mais um preto encarcerado
Na vida
Foi marcado
Negro brasil!

Filho de Maria
Matéria jornalística
Talvez das Graças

Uma bala perdida
 Da Consolação
Valei-me
Estampada na revista
 Senhora do Rosário
Brasil negro?

A Esperança é Garcia
Entre Ágatha e João Pedro       
 Herança minha 
100 tiros de alerta
Ocultação de cadáver
Advertência
Adélio
Não haverá complacência

Falam de cobiça
Milton e seus Santos
 Donos da injustiça

Ama de leite
Seio
Não teu
Estuprada
Relegada ao seu
Da senzala ao cortiço
Do tronco ao homicídio
Da loucura ao suicídio

Falam de meritocracia
Filha mestiça
Sufocada no chão
Supremacia

A mancha de Caim
 Relegado, amaldiçoado
Máscara de Flandres
Escorre carmim

Das mãos da sinhá
O coração até a boca
Usando linho
Esmagado com a mandíbula
Velho e sozinho

Resistência
Não combina
Com
Indolência

Aos meus!

—Myller Mayer

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Janeiro de 98

Flor do verão
Estação mais quente
É corpo
Sensação

A mente
O jeito
Harmonia perfeita

A linha do Equador
seus encantos
O caribe no teu olhar
profundo
De misteriosos
segredos

Garimpando
a joia bruta
Que tu és
Lapidação
Mineral translúcido
Inestimável

Jazida do teu coração
Pulsante
ternura
A Paixão
emana

Brilhe no bloco
Ardente
Um turbilhão
De
Desejos

O vento
teus cabelos
Inteligência
delirante
Aroma
inebriante

No lago
dois cisnes
Um par
Figuras ímpares
Que se completam

És tantas
em uma só
Acredite em meus versos
Esculpidos a tua imagem
"Angel" de Benjamin Victor
Ao êxtase de Bernini

As leis romanas
Iustitia
O futuro
É teu

Felicidade
que nasceu
Nas asas de um beija-flor
floresceu

Liberdade
as filhas de Frida
No teu dia
E sempre


—Myller Mayer

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Serenata alquimista

Quem tu és?
Atrás do véu
De teu sorriso
Encantador
Dor?

Só marinheiros sentem
Afogados
Na melodia
inebriante

Quem és tu?
Sereia ou Deusa?
Não importa
Só quero o encanto
Dos teus olhos
com os meus

Abre-te
Em carne nua
Exposta ao sol
na batida
do carnaval

Mostra-te o âmago
Desprotegido
machucado
Tantas vezes mal tratado
Relegado

Quem tu és?
Coração e  mente
Dionísio e Afrodite
Pureza e  pecado
Amor e solidão
inquietude e compaixão

Ladeira escura
calçada de segredos
chega ao fim
a madrugada

—Myller Mayer

domingo, 20 de outubro de 2019

Oráculo de Delfos

 

Eis-me aqui
Na alquimia reflexiva
Entre às entranhas do cordeiro
hermético
Responda-me
Proféticos

Relicários de ilusão
Entre às colunas
Sangue
Enxofre

Apollo
Assassinara
Píton,
sem respostas
a indagação

Intoxicado,
por Gaia
 renegado,
por Hera
amaldiçoado

Diga-me
 minha sina
 destino dos depravados

o castigo
dos infiéis
desgraçados

Consola-me
Hígia
envenenado

das serpentes
transitórias
oníricas

Sou alma
de Asfódelos

Caronte,
nobre amigo
Navegante
das
perenes águas
 em Cócito

Lamento de vida
Um sopro
irrelevante
o exício

—Myller Mayer

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Luminol

Grilhões
 Entre os campos
algodão
Entoando o medo
Perícia forense
Vestígios
Luz negra

Madrugada
Temperatura ambiente
Mais um herdeiro
De Maria
Chão quente
Hoje das Graças
Sala fria
IML

Amanhã do Socorro
Maria, não tem paz
Tem aborto
Filho criado
Luminescência

Sois pecadores
Na terra
Bestial
De Padim Ciço
Carrancas
o Velho Chico

Bala perdida
Encontra
Pivete sem registro
Execução fiscal
Negativa do afeto
Asfixia estatal
Periferia
 dialeto
Toxicidade canibal

Gotas de orvalho
Regam às flores
o corpo
a tampa
o
sepulcro.


—Myller Mayer 


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Café Soçaite

T           B           P
     O           R          U
   R           A           E
        P           D          R
  E           O           I

     Reconheço a perda, a colheitA
          Aroma    Grãos, triturados na gargantA
    Vapor             Sem filtro, shots, sem açúcaR
           O tom       Um Bule qualquer, morenA
                             Vazio no peito, amargO
                              Esfriou, o café, amoR 
                            Tudo em frentE
                            Uma xícarA
                           e só

—Myller Mayer


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Poesia Censurada


 Em meu peito
 habita
Dinato
Acorrentado
Insaciável

Imerso na ambição
Embriaga-se
Recusando amor

A mentira humana
Sussurra a voz
Dispersando vitalidade

O prelúdio
Na ópera
Falecida

Harmoniza
Fermenta
 Barril de carvalho
Reservando
Os dias

Decifra-me
  códigos
Pressente
O êxtase
Pulsação

Paralisai-vos
Estilhaços no carpete
Sanpaku
A recusa dos batimentos
O sol poente
Ela vem

Inebriante
Com teu lábio
Carmim
Vestido preto

Em uma mão a rosa
Quase solitária
Na outra
A adaga

Encerras
O último ato
Com luz
Lamento, aplausos
E vaias.

—Myller Mayer